A BUSCA - RONNIE G.

    De todos os contatos que tive com o luto, esse, em particular, me fragmentou de certa forma, me separou de mim mesmo, deixou em mim um abismo entre o eu que sou e observa e narra o que passou, e o eu que gostaria de ter sido.

    A incessante busca pelo eu é o que talvez molde nossa definição de espécie, talvez tenha sido o que nos diferenciou das outras. Olhar para cima e precisar de respostas a perguntas simples que não nos convêm, meros mortais. Coisa do divino. Divino que, comigo em particular, sempre fez contato próximo, próximo e vivo, mas também, inevitavelmente, como quase tudo que conheço e experiencio, paradoxal, longínquo e calado, não morto, eu o mantenho vivo.

    De qualquer forma, essa fragmentação de corpo e alma me fez apegar a algo não vivo, não o divino, outra coisa. Apeguei-me a um sentimento, de algo que não possuía, de algo que desejava; parece banal verbalizar, mas fez parte de quem precisei identificar como o meu eu tempos depois, para elaborar e construir uma delicada costura entre o que sou e o eu que minha alma pensava que era. Costura fina e frágil, não é como uma cicatriz, resistente; pode ser descosturada por qualquer deslize, qualquer movimento brusco e repentino.

    A alma é algo que pensei que tinha até perdê-la e perceber que não a possuía, apenas a continha. A diferença ficou clara ao tentar elaborar uma ideia do que era. O que buscava? Buscava a mim, mas eu já estava comigo, queria de volta o que já não tinha mais, o eu que me fora arrancado. Quem arrancou? Eu mesmo. Pecado esse previsto de punição. Mas não me voltava mais ao divino, esse sinto que me abandonara. Em busca da alma que não era minha, mas a queria de volta. Porém, para possuí-la integralmente, precisava deixar o meu defunto ir.

    Era uma noite fria, em que os sentimentos se retraem e dão espaço à mais ampla solidão, aquelas noites em que o contato humano, mesmo que físico, não se faz presente no campo metafísico. No desconfortável banco da minha sala, após folhear algumas páginas de um romance inglês, projetei, em forma humana, a imagem do meu sentimento. Após algumas estações vivendo o que julguei ser um sentimento verdadeiro, minha vida tornou-se um pesadelo. Em um momento epifânico, levantei de um salto da minha mesa e corri em direção à porta, como se procurasse ou tivesse encontrado a alma que buscava de volta — meu próprio corpo tornou-se um vulto. O som que sucedeu foi estridente e desastroso, como tudo que fazia. O porcelanato, ainda úmido pela limpeza que a faxineira do setor acabara de terminar, foi o responsável pela minha queda. Ainda me pergunto o porquê de ter corrido naquele momento; caminhadas leves teriam me levado ao mesmo lugar. Fato é: a queda me fez bater com a cabeça em um vaso próximo que se espatifou no chão, dando um triste destino às folhas manchadas de verdes claros e escuros. A pancada me fez fechar os olhos, a dor que senti na cabeça deu lugar a uma surdez repentina; minha visão, mesmo com as pálpebras umas contra as outras, se tornou um clarão. Ao abrir os olhos, a cor branca e clara foi se esvaindo até dar lugar a um cenário límpido, claro e de pureza. Não havia nada além de mim, uma estrada e uma árvore no horizonte. Horizonte… Se não tivesse olhado para ele, talvez não estivesse narrando esse fato. Tratar de uma questão humana sempre gera identificação, sobretudo quando um humano gera os fatos e pensa tão incisivamente nos frutos fantasiados de seu próprio imaginário, distanciando-se dos conhecimentos que geram o entendimento do complexo antropo. Essa não é uma narrativa comum; um leitor assíduo provavelmente já leu essas palavras antes, mas os fatos apresentados aqui não calham ao usual humano, e nem é a intenção.

    O horizonte me apresentou a figura de um homem; ao vê-lo, caminhei em sua direção e agarrei-me a ele. Senti o calor de seu corpo, que, além do físico, envolveu-me de uma maneira plasmática, o corpo personificado do sentimento que, até então, tentara, inutilmente, me desprender. Fui envolvido. O que aconteceu depois não me orgulho em dizer, a personificação física e viva foi por mim “elevada” a uma outra categoria, a elevação que se encaminha ao pós-vida. Queria me livrar. Tentei me livrar e fiz diversas manobras até que me soltei da confortável sensação que ele me proporcionava, corri para o mais longe possível. A tempo de localizar, no gramado exageradamente verde e bem cuidado, uma pedra com formato curioso: coração de gente. Não sei de onde tirei forças para levantá-la, talvez o desespero de me prender de novo me tenha ajudado. Nesse momento, as forças em minhas pernas foram perdidas e, novamente, vindo calmamente pela estrada, o homem se aproximava de mim, com um conforto que me desconfortava, pois exigia de mim a renúncia do meu bem-estar. O mais certo dos sentimentos me alcançou, lancei contra ele a pesada pedra. Observei lentamente enquanto o coração geológico voava pelos ares de encontro com a cabeça da minha projeção. Os segundos que sucederam foram desesperadores.

    Meu coração batia com um descompasso assustador, aquilo que parecia minha libertação prendeu-me ao ser quem me cingia. Fiquei acorrentado. Corrente invisível. O corpo dele caiu na relva, uma poça de sangue formou-se na nascente vermelha que acabara de criar em sua cabeça. Os últimos movimentos dos seus dedos findaram aquilo que chamava de vida. Elevei a criatura viva à posição de morto. Meu morto particular. Por que o amava? E agora o possuía integralmente. Meu morto particular. Num instante, imaginei possuí-lo. Meu morto particular. Velei seu corpo por uns instantes, as lágrimas de matar o ser que amava caíam na relva revelando a essência de minha alma. Enlaçada e suja dos próprios interesses, o próprio bem-estar. A sensação de possuir alguém, consumir a essência tornou-me um ser desprezível, mas o tinha. Apeguei-me ao sentimento de tê-lo. Meu ser. Não vou enterrá-lo, é meu, decidi carregá-lo.

    Algumas horas se passaram em que insistia em levá-lo nos ombros. O peso do corpo passou a incomodar minhas pernas. O cansaço tomou conta. Deixei de querer caminhar. A lentas passadas, segui o caminho, que constantemente insistia em parar para recuperar a pouca força que me restava. No primeiro dia, o cheiro não me incomodou. Os perfumes ainda eram os seus. Segui caminhando.

    Outro processo ocorria simultaneamente na minha mente. O luto. Vivi o luto de um morto-vivo.

    A primeira coisa que me passou foi a negação, a busca por alternativas à morte. Talvez transpassar para o outro lado também. Matar a mim mesmo. Negar quem sou. Matar meu ser para ter acesso ao ser morto. Morrer junto. Hora! Não estou falando de morrer. Matar-me, sim. Morrer, não. Matar a mim. Tirar a vida do meu corpo e entregar ao ser amado. Jesus fez isso, por que não eu? Porque não sou divino.

    A divindade, talvez, no luto, seja outra parte das fases lentas. Por que meu defunto não é Lázaro? — “Sê Lázaro! Levanta!” — Mesmo com mal cheiro. Vivo. Mas não. O divino não trabalha assim.

    Por algum momento, voltei ao escritório, no chão. Olhei a vista horizontal que surgia da varanda, e aquelas luzes e carros e prédios. E tudo o que era humano. Tão civilizado. Lembrei-me da autora que, em algum momento, chamou toda essa porcaria de entulho. Cerrei os olhos. Voltei ao interior. Aquele porcelanato frio e branco me transportou de volta àquela estrada quente com o corpo.

    Agora, a estrada não era mais plana; tinha uma pequena elevação. Ao correr os olhos por ela, vi que ia de encontro a algo mais alto. Além das nuvens. Continuei caminhando.

    As pernas estavam muito doloridas, avistei, no longo caminho, um homem. Aproximei-me. Vi que suas expressões não eram humanas. Não me olhava querendo algo. Não tinha nele a ambição do homem. Divindade, sim. Um Deus. Ao olhar em seus olhos, vi que aquele homem divino era íntimo. Mas seu olhar afetuoso era o de um pai para com sua criação. Mesmo que um olhar não muito orgulhoso. Não estava feliz com o que via, mas tinha afeto. Nenhuma palavra foi dita, mas naquele momento, um diálogo muito rico entre eu e o Deus particular que acabara de projetar ocorreu. O defunto.

    O corpo já não estava isento de cheiro. Mas eu insistia em carregá-lo. Deixá-lo ir. Enterrar. Não eram opções. Era tão confortável senti-lo e ainda tê-lo. O simples medo de deixá-lo me fazia suportar o frio e o cheiro que ele transmitia. A criatura divina se afastou de mim. E eu continuei caminhando.

    Precisei lidar com o cheiro. E não era obrigado, precisei. A necessidade da humilhação. Humilhar a mim mesmo. Coloquei-me, em certo momento, em posição de adorador do morto. Uma espécie de devoção doentia. Ao passo que era lindo — andar por aquele caminho tão límpido e claro — realmente sentia algum propósito naquilo tudo. E o apego ao meu defunto não passava. Minhas lágrimas já haviam secado. A esperança era tê-lo pelo máximo de tempo possível.

    Enganei-me em relação a mim. O ser que sou matou o ser que amei. Busquei desprender-me do conforto que possuía, odiava estar confortável, queria o desconforto, mas não sabia mais o que fazer com ele, até o desconforto tornou-se, nessa desova que eu buscava do corpo, um conforto. Habituado ao peso dele. Os vermes corriam entre meu corpo e aquele que possuía. Continuei caminhando. Já fazia semanas que estava se decompondo. O corpo plasmático. O ser dele. E os processos pós-morte são particularmente lentos. A primeira fase são os primeiros minutos em que o coração do defunto para de bater. Até dá para reanimar, mas, após certo tempo, se as tentativas de reanimação forem frustradas, os órgãos vitais perdem suas funções e acabam matando o restante do corpo. A falta de algumas moléculas de oxigênio faz isso. O sufoco. Após esse período, o gélido corpo passa, após algumas horas, a morrer pouco a pouco. Todo o sistema de defesa falha. E, ao escolher, e foi minha escolha, arrastar o defunto, tive de lidar com esse processo. Estava cansado. Na longa caminhada, avistei a margem de um rio. Aproximei-me, as águas corriam ferozmente para um nada. De lá, surgiu meu divino, o Deus que de mim não se orgulhava — “Larga teu corpo!” — As palavras bateram fundo em minha falha existência. Larguei o corpo à margem do rio. Fitei o olhar na face do meu defunto. Foi o que precisei. Estava morto. Morto estava eu. Desprendi minh'alma do corpo. Em morte renunciei à vida, em vida apeguei-me à morte. Vivi o luto do homem que fui e que sou, agora perambulo por esses lugares buscando outro corpo para ser possuidor. Vivi um luto que eu mesmo criei.

Comentários

  1. Que melancólico. Amei a escrita, parabéns 👏🏻

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  2. Eu fiquei submersa na história, tantos pensamentos e explicações vastas me chamou a atenção, gostei bastante da escrita e como você deu caráter para um sentimento sem explicação, parabéns pela escrita Ronnie👏🏻

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  3. Você é fantástico Ronnie e escreve muito bem! Já estou anciosa pela próxima publicação. Virei fã ❤️

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